Comunicação Dirigida

Crônica sobre o exagero das formas de abordagem ao cliente! Escrita por Ricado Benevides, mestre em literatura brasleira, consultor editorial e professor das Faculdades Integradas Hélio Alonso e da Universidade Estácio de Sá.


Intimidade-Comunicação Dirigida

– Boa tarde, senhor Bitoco. Como vai?
– Bitoco… Há quantos anos não ouço alguém me chamar assim. Quem está falando? Será… Meu Deus, não é possível. Sarinha? É você?
– Não, senhor Bitoco. Infelizmente, não é a Sarinha. Agora, ela mora em Mossoró, casou-se e tem três filhos. O maior se formou em medicina.
– Mas, então, quem é você? Quase ninguém sabe desse meu apelido de infância. Já sei! Você deve ser amiga do Klaus, aquele sacana. Sempre gostou de me encher o saco por causa do apelido. Klaus, você deve estar na extensão, seu desgraçado!
– Também não, senhor Bitoco. Eu me chamo Roberta, trabalho para uma empresa de telefonia celular e gostaria de conversar com o senhor sobre uma boa oportunidade.
– O quê? Você deve estar brincando. Como conseguiu esse número? E como sabe do meu apelido? Isso deve ser algum tipo de piada. Minha filha, eu não tenho celular, não quero ter e detesto quem tem. Agora, só me explica quem lhe falou sobre o ‘Bitoco’.
– Sabemos muito sobre o senhor. Por isso, tomamos a liberdade de ligar, senhor Bitoco. Agora, quanto às suas preferências, permita-me fazer uma objeção. O senhor diz que não gosta de celular, que não quer um celular, mas, na verdade, o senhor quer sim. Mais do que isso, o senhor precisa de um! O senhor apenas não sabe disso ainda.
– O quê? Mas você é muito petulante, hein, menina?! Imagine… Me dizer o que eu quero e o que não quero… Essa é boa.
– Senhor Bitoco, lembra aquela vez, no dia da festa do Henrique? Seu carro quebrou às três horas da manhã, no meio da estrada velha da Barra da Tijuca. O lugar estava totalmente deserto e, quando passava um carro, ninguém se dispunha a parar para ajudá-lo. O senhor ficou esperando por duas horas e ainda deu sorte do seu amigo Breno reconhecer seu carro parado. Ligou do celular dele e pediu o reboque. Lembra? Se naquela ocasião o senhor tivesse um celular, não teria de esperar tanto tempo, correndo os maiores riscos.
O homem ficou em silêncio por alguns segundos e depois voltou timidamente à conversa:
– Mas como você sabe disso? Já faz cinco anos que aquilo aconteceu. É algum tipo de trote? Quem é você? Deve ser algum amigo me sacaneando, só pode ser.
– Senhor Bitoco, e aquela vez em que o senhor chegou atrasado à entrevista de emprego? Aliás, poderia ter sido seu primeiro emprego na Companhia Henderson. Se tivesse um celular, poderia ligar para a mulher do RH, explicar o motivo do atraso… Talvez, ela aceitasse entrevistá-lo em outra data. Sua vida poderia ser outra! A Henderson é muito sólida no mercado de construção civil e cria muitas oportunidades para seus funcionários crescerem lá. Talvez, o senhor estivesse bem de vida e nem precisasse pagar o carro em prestações. Pelo que sei, ainda faltam 15 parcelas, não é?
– Pelo amor de Deus, quem são vocês? Como sabem tanto a meu respeito? Eu sou um simples engenheiro, não tenho bens, vivo apertado e não sou alguém importante. É alguma chantagem? Por favor, explique-se, seja clara, Roberta. Não é esse o seu nome?
– É sim, o mesmo nome da sua esposa. Não se trata de nenhuma chantagem, Bitoco. Apenas trabalho numa companhia de telefonia celular e gostaríamos de oferecer o melhor produto, nas melhores condições, ao menos as mais adequadas à sua realidade. E veja, hoje em dia, as informações sobre os clientes são muito disponíveis. Os bancos de dados são muito sofisticados. Além disso, nossa companhia trabalha de acordo com o princípio da Comunicação Dirigida Superexcelente. Isso quer dizer que, antes de contatar um cliente, procuramos saber tudo sobre a vida dele e encontrar as melhores formas de nos comunicar. Tudo para tornar o contato mais pessoal, entende? Agora, por favor, vá até a cozinha e apague o fogo porque, do contrário, sua carne passará do ponto. E você não vai querer isso, não é mesmo, Bitoco? Gosta de bife mal passado, que eu sei.
– Hã???
O homem olhou para a porta da cozinha e viu a fumaça num volume maior que o desejável. Embasbacado, seguiu as instruções e voltou ao telefone.
– Agora que o senhor já apagou o fogo, podemos conversar sobre o plano do seu celular.
– Ah… ah… celular…
– Ora, vamos, Bitoco, preste atenção! Sua mulher sempre diz que você é desatento!
– O que devo fazer?
– É simples. O celular que você quer, mas não sabe ainda que quer, é o modelo WD3921 com câmera. O plano é de 250 minutos, além do bônus a partir do quinto mês de uso. Bitoco, faça o seguinte: pague em cinco vezes no cartão, porque seu cheque já ultrapassou o limite… E aí, cada parcela sai por R$ 123,70. Está bem de acordo com a sua faixa de renda. Você receberá tudo pelo correio. Está entendido?
– Ah, acho que sim, Roberta…
– Agora, desligue e ligue para sua mãe. Dê parabéns pelo aniversário e pergunte se o joanete dela anda doendo.

Ricardo Benevides
Fonte: Nós da Comunicação
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5 respostas em “Comunicação Dirigida

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