Economia Criativa: resgatando valores de um mundo simbólico


A globalização provocou inúmeras transformações sociais, a conectividade, as novas tecnologias da informação e a comunicação fazem parte disto. Todo este contexto influenciou significativamente a sociedade, exemplo disso é a constante readequação tanto do modo de consumo cultural, quanto da maneira de comercialização dos produtos.
É cada vez mais perceptível como o trabalho e o capital deixaram de ser fatores primordiais para a produção, para eleger como ponto de reconhecimento a criatividade e o talento humano. Estamos passando claramente por um período de mudanças, os paradigmas sociais estão em constante mutação e é cada vez mais perceptível a nossa transição da Sociedade da Informação, partindo para uma visão mais holística da Economia Criativa.

Este conceito relativamente novo vem para definir as classes criativas que seriam aquelas pessoas que trabalham com a criatividade, valem-se do intangível para produzir o tangível, usam o cognitivo para reinventar e atribuir valor aquilo que já existe. Essa classe inclui trabalhadores das áreas da ciência, arquitetura, design, engenharia, educação, artes, música, comunicação, entretenimento entre outras. A sua principal função econômica é criar novas ideias, tecnologias ou conteúdo criativo. Em suma, são pessoas que agregam valor econômico por intermédio da criatividade e geram valor através da propriedade intelectual.

Para se ter noção do quão grande é a força dessa classe, nos EUA ela representa quase um terço da força de trabalho, representando aproximadamente US$1,7 trilhão da economia do país, o que equivale aos setores de manufatureiros e de serviços juntos.

Quando se trata das esferas culturais, econômicas e tecnológicas a Economia Criativa possui fortes laços com a economia em geral, pois engloba todo o desenvolvimento de um país, sendo uma opção totalmente viável para proporcionar a uma nação, o desenvolvimento econômico. A criatividade é a força motriz principal, e não o capital. Por ser também uma ferramenta de inclusão social ela está onipresente na vida das pessoas. Nos países em desenvolvimento, especialmente nos mais pobres, é uma estratégia de geração de empregos e um modo de resgatar a autoestima de comunidades mais carentes, atuando como principal agente de desenvolvimento humano e sustentável e não apenas como determinante do crescimento econômico.


As atividades criativas, principalmente aquelas que estão ligadas a produção artística e festas culturais tradicionais que resgatam a cultura de uma comunidade, geralmente, levam a inclusão da parcela minoritária, marginalizada socialmente. Muitos jovens, que estão à mercê de um futuro incerto descobrem seus talentos neste processo de interação e inclusão. Na maioria das vezes eles estão em contato com atividades criativas mais ligadas ao setor informal da economia. A produção de artesãs podem ainda se relacionar com a moda e a organização de grandes atividades culturais ou grandes eventos do mundo da moda, como ocorre com o São Paulo Fashion Week, onde estas atividades são incorporadas à produção e desempenham um papel catalítico.

Sendo assim, a Economia Criativa em sua enorme abrangência tem ainda por finalidade promover a inclusão social através de trabalho criativo, que reverte benefícios econômicos a população. Incluir socialmente é dar valor e recuperar a autoestima de uma comunidade, também somando fatores culturais, econômicos e principalmente humanos. É recuperar a cultura e a identidade de uma comunidade que outrora fora esquecida.

Um exemplo disso é o documentário Lixo Extraordinário do artista plástico brasileiro Vik Muniz. O documentário que foi lançado em 2010 mostra a inclusão social e o resgate dos valores de uma comunidade realizado através da interação entre arte e lixo. O cenário se passa no lixão de Gramacho, em Duque de Caxias (RJ), o maior do mundo. Seus personagens, catadores de lixo, vivem uma dura realidade na profissão em que se encontram.

A ideia de Muniz para o documentário centrava-se em recriar obras de artes famosas a partir de materiais retirados do lixão – cotidiano das personagens da história. Formavam-se então peças de proporção muito maiores que a obra original – que eram fotografadas, a partir de um cenário completamente diferente, com material reciclável e todos os demais objetos encontrados no lixão como chinelos, tampas de privada, latinhas, tampinhas de garrafa, banheiras, etc. Ocorria um grande processo de transformação, transformavam o lixo em arte e se transformavam durante o processo.

Depois de concluído o trabalho, levavam a obra de arte para ser leiloada em grandes eventos e o dinheiro recebido era doado para a associação dos catadores, de forma que eles puderam ter o fruto de seu trabalho e perceber como a produção criativa poderia gerar sustentabilidade e desenvolvimento humano e econômico.

A marginalização que ocorre entre os catadores, enquanto uma classe cultural minoritária e posteriormente seu desenvolvimento a partir de algo que era comum a eles todos os dias, é um claro exemplo da Economia Criativa, onde através da produção cultural criativa e da propriedade intelectual pode-se ter o desenvolvimento humano, econômico e cultural de uma comunidade.

O documentário já faturou prêmios nos festivais de Berlim, Sundance e de Dallas – na categoria de melhor filme, no qual ganhou um prêmio de U$25mil que foi doado para a associação de catadores do Jardim Gramacho.


O artista plástico apresentou a arte aos catadores que por sua vez mostraram uma vida difícil, onde a dignidade e o desespero ilustravam rostos tristes, que reimaginavam uma vida fora daquele ambiente. A arte enquanto agente transformador demonstrou como se pode mudar a realidade e a mágica do espírito humano. A sociedade enquanto detentora de um poder social – subjetivamente estabelecido – demonstrou como pode através da marginalizar determinados grupos. E os catadores enquanto grupos marginalizados demonstraram como podem através da solidariedade – assumindo uma identidade social coletiva, resgatar seus valores humanos, intrínsecos a qualquer tipo de ganho tangível. O mundo singular, simbólico e criativo enriquecido pela inclusão social, por sua vez proporcionada pela Economia Criativa.


Fonte:

Jéssica Fleckner
Diretoria de Comunicação
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3 respostas em “Economia Criativa: resgatando valores de um mundo simbólico

  1. Excelente texto e um ótimo exemplo. Aonde está o RP na economia critaiva? O profissional de relações-públicas é aquele que de forma holística pode trabalhar fazendo o meio campo entre as diversas áreas que determinado projeto da economia criativa envolve. Essa prática vem crescendo muito no mundo e na Europa, por exemplo, os governos vem a cada ano incentivando a construção de incubadoras de empresas. Penso eu que deveríamos olhar com uma atenção especial nesta área, pois, a profissão do futuro tem um campo vasto e uma função primordial na economia do futuro.

  2. Parabéns pelo texto Jéssica! Muito bom mesmo.Satisfação em ver o material da RPjr e a sua competência e visão como profissional.O tema é inovador, como o próprio nome diz. E digo mais, o entendimento da Criatividade e Inovação como "força motriz", como você colocou, tem gerado espaço para o desenvolvimento exponencial do chamado empreendedorismo social.Estamos vivenciando uma fase extraordinária e ótimas oportunidades vão surgir junto aos profissionais de Comunicação que souberem entendê-la e assimilá-la positivamente. Quando digo "positivamente", quero dizer que podemos – mais hoje do que antes – agir e propôr ações que transcendam o contexto da mais-valia globalizada e do "vicio" pelo lucro.Essa conversa vaaaai embora hehe

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