A culpa é do “xaveco”

Em pleno século XXI, diversas mulheres, mais especificamente jovens e brasileiras, vêm fazendo um tipo de protesto contra o estupro, de forma particular. Essa onda de protestos teria se iniciado com uma pesquisa, mostrando que grande parte da população brasileira culpa a própria mulher pelo estupro, além dos vários registros de violação sexual recorrentes no Metrô e trens da cidade de São Paulo.

O Ipea- Instituto de Pesquisa Aplicada admitiu, depois de um tempo, que a pesquisa anterior estava errada, e que 70% da população discorda total ou parcialmente com a ideia de que “mulheres que mostram o corpo merecem ser atacadas”. Porém, mesmo com esse novo dado, a crise já havia sido estabelecida. E para agravar essa situação, uma rádio liberou suposta propaganda do metrô, que causou ainda mais crítica e polêmica. Porém, esses casos são apenas “a gota d’água” para anos de um tipo de mentalidade na qual o sexo feminino é discriminado.

As mídias sociais servem como uma ferramenta importantíssima para essa busca feminina por liberdade e igualdade, porém também podem exercer papel negativo. Recentes páginas estimulando crimes sexuais contra passageiras do Metrô e da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) surgiram na internet. Unidades da polícia responsáveis pelas investigações afirmaram trabalhar para identificar tais práticas nas redes.

Não é de hoje que a mulher coloca a sociedade, e si mesma, a questionar seu papel, direitos e deveres. E agora, mais do que nunca, a brasileira inserida nesse contexto, passa a protestar contra todo e qualquer tipo de abuso. Além das mulheres de todas as idades, muitos homens apoiam tais reivindicações. Mas o que estaria em questão, nesse caso, seriam os homens, e até mulheres, que não apoiam. E ainda os que toleram assédio e até mesmo o estupro, muitas vezes com a desculpa de que algumas mulheres “provocam” ou “pedem” para sofrer tais consequências, dependendo do tipo de roupa que usam ou atitudes que tomam.

Os episódios recorrentes na capital paulista, que envolvem toda essa polêmica e chamam atenção do Brasil inteiro nesses primeiros meses de 2014, já passaram de 20, apenas os que foram efetivamente registrados pela Delegacia de Polícia do Metropolitano (Delpom). Os molestadores preferem agir quando há superlotação, nos horários de pico e são, em média, homens de 32 anos. O foco principal são mulheres jovens, porém três dos casos ocorreram com mulheres acima de 40 anos e outro, com um homem.

xaveco 1

Segundo a Delpom, ainda há muita subnotificação. Acreditam que muitas mulheres não denunciam casos de assédio sexual, por não quererem se expor, não terem coragem ou por medo.  A polícia incentiva a denuncia em qualquer caso, para que o responsável seja punido. Apenas um dos casos foi reportado como estupro, os demais como importunação ofensiva.

xaveco 2

Em meio a toda essa confusão, uma crise se dá com o lançamento de propaganda supostamente feita pela rede de Metrô veiculada na Rádio Transamérica FM, em São Paulo. Refletindo sobre o assunto, uma propaganda, aparentemente, seria a melhor forma de contornar tal situação e acalmar a comunidade, além, obviamente, de medidas efetivas como reforço na segurança dos transportes públicos.  Com isso, uma propaganda do Metrô deveria frisar tais medidas. E é nesse ponto que podemos afirmar que faltou um relações-públicas. Tanto antes, quanto depois do ocorrido.

Mesmo com o momento delicado das inúmeras denúncias, a inserção publicitária que realmente foi ao ar e estava ligada ao metrô era transmitida por um personagem, que entre erros gramaticais propositais, afirma que as lotações eram um ótimo lugar para “xavecar a mulherada”. Dá uma olhada:

A reação do público foi imediata: várias pessoas expressaram suas opiniões sobre o assunto nas redes sociais. Principalmente no Twitter, através do qual, muitos usuários inconformados questionaram o Metrô. O governo estadual, que é quem controla a conta oficial, informou que o material era totalmente inapropriado e que assim que tomaram conhecimento do mesmo, consultaram a agência publicitária responsável. Segundo eles, o conteúdo estava em desacordo com o briefing passado e não foi aprovado, tanto pela agência, quanto pelo Metrô. Afirmaram também que advertiram a rádio a retirar a propaganda do ar, além de adiantar que processariam a Transamérica. A resposta deles foi que nenhuma publicidade é veiculada sem aprovação do contratante e que, segundo a visão deles, a expressão da “xavecada” não remetia, de forma alguma, ao abuso sexual.

Tudo parece não ter passado de um mal entendido, ou melhor, um problema de comunicação. Porém, esse erro, considerado pequeno por muitos, gerou algo como uma “bola de neve” que envolveu protestos, questionamentos sobre a mulher e seu papel na sociedade atual, falta de segurança e outros problemas com transporte público, utilização das redes sociais e muitos outros, piorando toda a situação já anteriormente estabelecida.

O papel de um relações-públicas passa a ser imprescindível para um bom gerenciamento dessa crise. Sem contar que um profissional de RP seria também o mais indicado para prevenir o problema e não apenas remediá-lo. Dessa forma, comprovamos mais uma vez a importância da valorização de um bom comunicador dentro de uma organização, ainda mais sendo tão influentes como as envolvidas.  E é válido lembrar também, que todo cuidado é pouco quando se pensa em utilizar uma frase como “xavecada na mulherada” em uma peça publicitária, para um público tão abrangente e ainda em meio a tudo isso.

Encontrando-se nessa situação, portanto, o relações-públicas, independente de estar à defesa do Metrô, da Rádio Transamérica, da agência ou de qualquer outro envolvido, devemos reforçar que em primeiro lugar sempre deve vir a ética, não apenas em comunicação, mas em todos os sentidos. Por se tratar de um assunto polêmico, delicado e que envolve uma série de problemas estruturais da sociedade contemporânea, o profissional deve sempre ter em mente a valorização daquilo que seria considerado correto, levando em conta, nesse caso, os direitos e deveres da mulher e, acima de tudo, reconhecendo e respeitando-os.

Referências:

Estadão

Estadão

Exame

Globo

Aline Martins
Diretora Presidente

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